quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Ponto de Vista.

Por Pedro Lichtnow .


Assunto.

 VESTÍGIO DA AURORA .


Alexandre Frangioni.
PALACETE DOS LEÕES 

Algumas exposições não ocupam apenas o espaço.

Elas ocupam o tempo.

Levarei Saudades da Aurora, individual de Alexandre Frangioni, em cartaz no Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões até 6 de março, propõe uma travessia silenciosa pela memória, pela responsabilidade coletiva e pelo legado que deixamos ao mundo.

O cotidiano, em Levarei Saudades da Aurora, não aparece como registro banal. Surge como vestígio. Objetos, selos, resinas, caixas de acrílico, luzes artificiais e materiais de acabamento industrial constroem pequenas arquiteturas da lembrança. Obras como Memória Seletiva – Verde II revelam fragmentos preservados sob camadas translúcidas, como se o tempo tivesse sido suspenso — não para apagar, mas para expor.

A aurora evocada no título não anuncia apenas um começo. Evoca aquilo que se perde quando o dia avança. O instante anterior à decisão. O intervalo entre consciência e ação.

Como observa a curadora Sylvia Werneck:

“Em Levarei Saudades da Aurora entram em campo reflexões sobre nossa conduta e nossa responsabilidade para com as sociedades que construímos, o mundo que deixaremos para os que vierem depois de nós.”

Frangioni, artista brasileiro nascido em São Paulo em 1967, desenvolve uma obra voltada ao coletivo. Seu trabalho evita narrativas individuais e observa comportamentos sociais em escala ampla. Valores culturais, vínculos com o passado, ilusões que sustentam a busca por poder atravessam suas escolhas formais e conceituais.

Os acabamentos industriais ocultam o gesto do artista. A autoria se dilui. O paradoxo se impõe: quanto menos o indivíduo aparece, mais a obra fala de todos nós. A memória deixa de ser pessoal e se torna campo comum.

No Palacete dos Leões — espaço marcado por história, institucionalidade e travessia — a exposição ganha outra densidade. O edifício também guarda camadas. Também carrega silêncios.

Talvez a arte exista para isso.

Para lembrar que esquecer não é neutro.

E que a memória, como escreveu Walter Benjamin, é uma forma de resistência.

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Jornalista Pedro Lichtnow é autor, neurocomunicador e palestrante existencialista.colaborador para Web Leite Quentee News.


Exposição. 

Ate dia 6 de Março  de 2026

Das 13 as h 18.

Terça-feira a sexta.

Rua João Gualberto 570.

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