Premiado na Europa, livro “Zuca”, da carioca Fernanda Hamann, expõe privilégio racial e xenofobia na migração brasileira para Portugal
A escritora e psicanalista Fernanda Hamann transforma a migração contemporânea em romance sobre racismo estrutural e deslocamento cultural, acompanhando uma mulher branca e racista que passa de agressora a vítima de preconceito.
“Zuca busca o oposto do maniqueísmo didático, oferecendo uma trama construída com ambiguidades e sutilezas, provocando nossos juízos automáticos de justiça e compaixão.”
Daniel Galera, escritor, no texto de orelha
Portugal é hoje o segundo principal destino de brasileiros no exterior, com mais de 500 mil pessoas, segundo dados divulgados pelo Itamaraty em 2024, atrás apenas dos Estados Unidos. Mesmo atravessado por tensões
históricas que remontam ao período colonial, o país europeu segue como projeto de vida para milhares de famílias brasileiras.É nesse cenário real e contemporâneo que se passa “Zuca” (Editora Urutau, 184 págs.), novo romance da escritora e psicanalista carioca Fernanda Hamann, viabilizado pela Bolsa Criar Lusofonia, do Centro Nacional de Cultura / Ministério da Cultura de Portugal, consagrada por apoiar projetos literários de grandes autores lusófonos há mais de 20 anos. O livro, que conta com texto de orelha assinado pelo escritor Daniel Galera, revela o susto de uma brasileira branca e racista, de classe média, ao sofrer preconceito na Europa. Com edição brasileira e portuguesa, a obra recebeu o prêmio de melhor livro da Mostra Internacional de Livros da GallerySPT, em Madri.
A agenda de divulgação de “Zuca” inclui uma série de participações em eventos literários no Brasil e em Portugal ao longo de 2026, refletindo a boa recepção do romance em território português. Já circulando em livrarias como a Travessa de Lisboa e a Livraria Snob neste início de ano, Fernanda Hamann realiza uma apresentação no Instituto Cultural Freud, no dia 27 de abril, articulando temas do livro com conceitos fundamentais da psicanálise. Em Lisboa, participa no dia 26 de junho do projeto Tardes Literárias, promovido pelo Consulado do Brasil, em uma mesa ao lado de Álvaro Filho, com mediação de Patrícia Cerutti. A autora também tem presença confirmada no estande da Editora Urutau na Feira do Livro de Lisboa e na Feira do Livro de São Paulo, esta com sessão de autógrafos já marcada para o dia 30 de maio. Além disso, participa da Flip, em julho, e da Bienal do Livro de São Paulo, em setembro, ambas ainda com datas a serem divulgadas.
Uma racista descobrindo a xenofobia em Portugal
A obra parte da experiência de uma brasileira branca de classe média, a advogada carioca Bárbara Weissmann, que, cansada da violência urbana no Rio de Janeiro, decide se mudar para Lisboa com o marido e o filho de 5 anos. Além da busca por uma vida mais tranquila, ela também quer fugir das consequências de um crime: Bárbara foi processada por racismo após agredir um candidato negro aprovado por cota em um concurso público no qual ela havia sido reprovada, chegando a passar uma noite na cadeia. Incapaz de reconhecer o próprio racismo, transforma frustração em ressentimento, elemento que influencia a decisão de deixar o país.
Ao chegar em Portugal, no entanto, a mesma mulher que havia sido acusada de racismo passa a enfrentar episódios de xenofobia. Em Lisboa, descobre que sua condição de brasileira a coloca sob o olhar desconfiado de parte da sociedade local. A narrativa acompanha essa inversão, na qual a personagem passa da posição de agressora à de alvo de preconceito e discriminação.
A “europeização” e a rasura como apagamento da identidade
Inspirada por uma longínqua ascendência portuguesa, Bárbara empenha-se em um processo de “europeização”. Alisa obsessivamente o cabelo e usa filtro solar para manter a pele alva. No relato em primeira pessoa, estruturado como um diário de imigrante, ela rasura termos típicos do português brasileiro para substituí-los por expressões lusitanas, numa tentativa simbólica de apagar traços da própria identidade. Ainda assim, percebe que continua sofrendo xenofobia, sendo vista como “brasuca” ou “zuca”, termos pejorativos usados para designar imigrantes brasileiros na Terrinha.
“Eu gostei muito de criar essa brincadeira de rasurar as palavras, porque ela expressa muito bem o que muitos brasileiros, principalmente brasileiras, sentem ao abrirem a boca para falar, em Portugal. A sensação de precisar se rasurar, se corrigir”, aponta Fernanda. “Quando digo bom dia a um motorista de Uber, todos os dias, preciso decidir se vou falar com o sotaque brasileiro (e correr o risco de sofrer preconceito) ou simular o sotaque português (e rasurar a minha própria identidade). Foi muito bacana conseguir criar uma forma literária de representar essa experiência.”
Literatura e psicanálise lado a lado
Escrever em primeira pessoa a partir de uma mulher racista foi um desafio assumido conscientemente por Fernanda Hamann. “Dificilmente um racista se assume como tal”, afirma. Para tensionar essa contradição, a autora recorre a um recurso psicanalítico, os sonhos. É nesse espaço que as questões raciais e coloniais emergem com força, revelando culpa mal elaborada, tanto individual quanto familiar, e expondo preconceitos estruturados na árvore genealógica de Bárbara.
Em 2021, ao ler sobre a crescente onda migratória, a autora se interessou por relatos de brasileiras brancas, de classe média ou alta, que se espantavam ao sofrer preconceito na Europa. Alguns chamam o fenômeno de colonização reversa. A autora prefere um termo de matriz psicanalítica, retorno do reprimido. “Hoje você discrimina, amanhã pode ser discriminado”, afirma, ao destacar o caráter estrutural das dinâmicas de exclusão.
Aos 47 anos, Fernanda Hamann é escritora e psicanalista, com pós-doutorado em Teoria Literária pela USP. Nascida e criada no Rio de Janeiro, já viveu em São Paulo e em cidades europeias como Madri, na Espanha, e Cour-Cheverny, na França.
Após concluir a faculdade de jornalismo, em 2001, ingressou no mercado editorial como revisora e ghostwriter. Hoje soma mais de dez livros publicados, entre romances, contos, ensaios e biografias, e é colunista do jornal português Público. Seu primeiro romance, Cativos (Editora 7Letras, 2015), foi traduzido para o francês e lançado no Salão do Livro de Genebra, em 2026.
Entre suas principais referências está Nelson Rodrigues, de quem destaca a pressa literária, uma escrita tensa, intensa, sem descanso. Também cita Marcelino Freire como mestre e reconhece a influência de Andréa Del Fuego e Morgana Kretzmann na construção de Zuca.
Para a autora, a pesquisa sobre feminismo, antirracismo e pensamento decolonial foi fundamental. “São questões de sobrevivência para quem tem a vida em risco devido ao ódio às diferenças. E questões urgentes para qualquer pessoa que queira viver num país ou num mundo mais democrático e plural.”
Fernanda trabalha atualmente em um ensaio inspirado na psicanálise sobre o narcisismo, partindo do conceito de Freud e ampliando-o para o nacionalismo. “O nacionalismo é o narcisismo de uma nação”, afirma. Na ficção, desenvolve também um romance sobre redes sociais iniciado em 2016.
Confira um trecho do livro:
"És brasileira? Respondi que sim. Ela emendou outra pergunta: Vieste à nossa terra pra roubar os maridos às portuguesas? E a velha nem me deu tempo de responder que não, de jeito nenhum, já sou casada, e com um brasileiro. A doida chalada agarrou o meu passaporte e avisou: Pois olha bem o que eu faço ao teu documento. Ela tentou rasgar o livrinho ao meio, e só não conseguiu porque reagi a tempo. Eu me debrucei inteira sobre o balcão, com a barriga e com tudo, estiquei os braços em cima da maluca e apanhei de volta o meu documento, todo amassado."
Adquira “Zuca” pelo site da Editora Urutau
https://editoraurutau.com/

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