domingo, 17 de maio de 2026

 



Boca Livre revisita e reinventa a obra de Edu Lobo


Em álbum produzido por João Viana para o selo MP,B/Som Livre, quarteto vocal homenageia a música de um dos maiores compositores brasileiros


(Créditos: Som Livre)


São somente três palavrinhas, que parecem até formar um verso de canção: “Boca canta Edu”. Mas a simplicidade e a literalidade do título – “Boca canta Edu” (MP,B/SomLivre) – não escondem, pelo contrário revelam todo um universo contido nessas três palavras e no álbum a que elas dão nome – ouça aqui



Em onze canções, todas elas sem qualquer dúvida magníficas, o quarteto vocal Boca Livre revisita a obra de Edu Lobo, reinventando-a e passando por todas as suas fases e seus principais parceiros: por ordem de entrada em sua vida, Vinicius de Moraes, Capinan, Ronaldo Bastos, Paulo César Pinheiro, Cacaso, Chico Buarque e Aldir Blanc, já em si uma antologia da letra de música no Brasil. 


O repertório passeia pelas canções pioneiras dos anos 1960, quando Edu liderava a transição da Bossa Nova para algo esteticamente mais amplo que ainda não tinha nome, mas que se chamaria depois MPB, coisas como a épica canção praieira “Arrastão” (1965), a bossa nova “Candeias” (1966), o samba de roda “Corrida de jangada” (1967). Depois, mergulha nos experimentais anos 70, em que Edu consolida a influência nordestina em sua música em baiões como “Sanha na mandinga” (1978) e “Uma vez, um caso” (1976), a moda de viola “Viola fora de moda” (1973), sem esquecer o frevo-canção, gênero da predileção de Edu, aqui cada vez mais sofisticado, em “Zanga, zangada” (1972). Da década de 80, marcada pelo seu encontro com Chico Buarque na realização de grandes musicais para balé e teatro, vem a obra-prima “Choro bandido” (1985), feito com inspiração e como homenagem a Tom Jobim, ídolo de ambos, originalmente do score da peça “O corsário do rei”, de Augusto Boal. Da década de 90, o Boca pinça parcerias de Edu com Paulo César Pinheiro, a densa canção “Dos navegantes” (1993), e Aldir Blanc, o samba “Ave rara” (1993). E já na virada para os anos 2000, do reencontro com Chico Buarque para o musical Cambaio, o Boca recria de forma radical o coco de embolada “Veneta” (2001), levada somente no pandeiro, como faria um cantador de feira.


Apenas com essas onze canções o Boca dá a exata dimensão da obra de Edu, uma das mais importantes da música brasileira nos últimos 60 anos. E, ao mesmo tempo, ao cantar Edu Lobo o Boca Livre reconta sua própria história.


É impossível dissociar o Boca Livre de Edu Lobo. Foi Edu que ainda em 1978 – portanto um ano antes da gravação do mítico primeiro disco do grupo – percebeu que o Boca Livre se tratava de um novo capítulo na história dos grupos vocais brasileiros e convidou-o para acompanha-lo nas gravações do disco “Camaleão”, nos shows de lançamento e numa excursão pelo Brasil através do Projeto Pixinguinha. Edu tornou-se assim padrinho do Boca Livre.


(Na verdade, e aqui vale abrir um parêntese, a relação do Edu com o Boca Livre é ainda mais antiga, é de antes do grupo nascer: David Tygel e Mauricio Maestro, ou seja, meio Boca Livre, faziam parte do Momento Quatro, grupo vocal que acompanhou Edu em diversas gravações ainda nos anos 60, inclusive a mais marcante de todas, a de “Ponteio”, ganhadora do célebre Festival da Record de 1967. Depois, Mauricio ainda trabalharia como arranjador e músico em outros discos de Edu, como “Limite das águas”. O Boca Livre, quando nasceu em 1978 com a chegada de Zé Renato e Claudio Nucci, foi quase que uma continuidade, ainda mais sofisticada, do trabalho iniciado dez anos antes. Fecha parêntese).


Até nas participações especiais este “Boca canta Edu” parece contar uma história: além do próprio Edu, que aparece na pioneira “Arrastão” e em “Candeias” fazendo a introdução original da gravação de 1967, o Boca ainda convidou seu “pai” entre os grupos vocais brasileiros, o MPB-4, que engrossa as vozes em “Ave rara”, e a cantora paulista Vanessa Moreno, a preferida de Edu da novíssima geração (que participou do disco comemorativo dos 80 anos do compositor, lançado no ano passado), em “Corrida de jangada”.

Os arranjos, como sempre, são de Mauricio Maestro e, como sempre, tanto no vocal como no instrumental estão ainda mais densos e sofisticados. Mas, ainda mais do que sempre, o resultado sonoro combina essa densidade com uma leveza que faz com que as canções pareçam novas (porque parecem mesmo ser), fruto do cuidado da produção do músico João Viana, pela primeira vez trabalhando com o Boca Livre.

“Arrastão” é a canção mais antiga do álbum. Composta com Vinicius de Moraes em 1964, e consagrada por Elis Regina ao ganhar o primeiro Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior em 1965, é considerada por muitos como o marco inicial da chamada MPB – o mesmo papel, nesse novo movimento, que exerceu um “Chega de saudade” na Bossa Nova. Recriada por um arranjo novo, corajoso (ao mexer na forma e nas harmonias de um clássico) e grandioso (com direito a cordas) de Mauricio Maestro, a nova versão convenceu Edu a cantá-la de novo depois de muitas décadas – o compositor retirou “Arrastão” do seu repertório, talvez por considera-la datada demais. Trazer “Arrastão” de volta e de forma tão contemporânea é uma das proezas, entre tantas, de “Boca canta Edu”.


Também com participação de Edu e orquestra de cordas, “Candeias” recupera a nostálgica introdução (“E caso ainda exista aquela rua, aquelazinha do sobrado em frente ao mar...”) só gravada por Edu em 1967 e eliminada pelos demais intérpretes no decorrer do tempo. Trata-se de uma das raras letras escritas por Edu, e que aborda sua vivência, desde criança, no Recife de seus pais, onde passava todas as suas férias. Trata-se também de uma das raras bossas novas clássicas de Edu, gênero que o formou, mas que sempre evitou (talvez para conscientemente ampliar seu leque estético). 


A empolgante nova versão de “Corrida de jangada”, samba de roda em parceria com o baiano Capinan, puxado no prato e faca de Marcelo Costa, percussionista que toca com o Boca desde o primeiro disco, traz Vanessa Moreno não só como solista, mas incorporada como uma quinta voz nos vocais do Boca Livre, ideia simples e genial que abriu possibilidades harmônicas para o arranjo de Mauricio.


Também uma parceria de Edu e Capinan, a igualmente empolgante “Viola fora de moda” deu oportunidade para o Boca Livre trançar violões e violas – principal característica instrumental do grupo. Enquanto em “Uma vez, um caso”, baião épico e literário da parceria de Edu com Cacaso, o belo arranjo de violoncelo tocado por Iura Ranevski torna sua letra narrativa, trágica e misteriosa ainda mais bela e interessante.


Uma das primeiras gravações da história do Boca Livre, que fez os vocais no registro original da música no disco “Camaleão” em 1978, “Sanha na mandinga” ganha arranjo novo cheio de detalhes e dissonâncias, um dos mais sofisticados do novo álbum. O mesmo acontece com “Zanga zangada”, o Boca Livre mostrando todo o seu virtuosismo vocal num frevo que foi originalmente criado por outro grupo vocal (o Quarteto em Cy), e marcou o encontro de Edu com o letrista Ronaldo Bastos, fruto do espanto e a influência que o Clube da Esquina e Milton Nascimento exerciam sobre ele naquele momento.


Reconhecido como filho pelo MPB-4 logo que surgiu, o Boca Livre volta a formar um octeto com o quarteto inspirador em “Ave rara”, coisa que volta e meia os dois conjuntos fazem, pelo menos desde “Se meu jardim der flor”, em 1981. O resultado talvez seja a gravação definitiva do lindo samba de Edu Lobo e Aldir Blanc.


Em contraponto à sofisticação instrumental que permeia o álbum, “Veneta” é um lado B de Edu e Chico Buarque cantado originalmente por Gal Costa, e aqui é recriado apenas com o pandeiro de Zé Renato numa brincadeira de estúdio que deu certo. Apenas com pandeiro e vozes, “Veneta” se revela um coco de embolada que faz jus à tradição de Edu de revisitar a música nordestina de sua ancestralidade pernambucana – uma das marcas de sua música.


Mas com arranjos calcados nos instrumentos do próprio grupo – os violões de Lourenço Baeta e Zé Renato, a viola de David Tygel, o baixo elétrico de Mauricio Maestro e as flautas de Lourenço, além da participação de grandes músicos brasileiros como o baterista Tutty Moreno, o pianista João Carlos Coutinho e as guitarras de Ricardo Silveira e do jovem João Moschkovic (filho de Zé Renato) – o Boca Livre buscou nesse reencontro com Edu Lobo ser fiel à própria sonoridade. Ouçam “Choro bandido” ou “Dos navegantes” para entender isso: os arranjos vocais sofisticadíssimos, cada uma das quatro vozes com espírito solista mas se harmonizando de forma inovadora e única, e o trançado também muito próprio e brasileiríssimo de violões e violas, o que resulta algo difícil de definir, a própria identidade musical do grupo. Foi essa identidade que Edu Lobo percebeu no Boca Livre assim que o conheceu em 1978. É essa identidade que agora em 2026 o homenageia recriando de forma tão ao mesmo tempo fiel e inovadora sua obra.

Hugo Sukman, maio de 2026



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