A Netflix anunciou em dezembro de 2025 a aquisição da Warner Bros. Discovery por cerca de US$ 82,7 bilhões, reunindo sob o mesmo grupo algumas das propriedades mais relevantes do audiovisual. A operação levanta questões sobre centralização de poder criativo. A cineasta brasileira Fernanda Schein, que atua há dez anos no mercado de Los Angeles e fez parte do time de editores de várias obras da Netflix, avalia que a incorporação de catálogos tão distintos sob um único padrão operacional pode padronizar processos de criação.
Segundo Schein, esse modelo se intensifica quando catálogos historicamente distintos passam a responder à mesma estrutura. “O consumidor pagaria mais caro por um conteúdo menos diversificado e menos criativo”, diz. “Quando você junta tudo isso sob uma mesma lógica, a diversidade naturalmente diminui.”
A operação envolve o catálogo da HBO Max, as franquias Harry Potter, DC, Mad Max, conteúdos clássicos da Warner Bros. Pictures como Matrix, Blade Runner, O Exorcista, Os Goonies, além de séries como Game of Thrones, House of the Dragon, Euphoria, True Detective, Succession e The Last of Us.
A fusão, que ainda depende de aprovação regulatória nos Estados Unidos, é uma das maiores já registradas no setor e deve reconfigurar o equilíbrio competitivo entre plataformas de streaming e estúdios tradicionais.
O futuro das grandes franquias
A incorporação de grandes propriedades intelectuais também altera o destino das franquias. “Teríamos dezenas de spin-offs de todas as propriedades intelectuais e franquias intermináveis, com cinco, seis, sete volumes”, afirma. “E todas com a mesma estética pré-determinada, genérica e previsível, sem espaço real para a liberdade criativa dos artistas.”
Para Fernanda, o impacto não se limita às grandes marcas. “Produtores independentes perderiam poder de negociação, já que a Netflix ficaria grande demais para ser confrontada”, afirma. “Quando um player atinge esse tamanho, ele não só participa do mercado, ele passa a defini-lo.”
Como isso afeta o cinema nacional?
Em países sem regulamentação específica para streaming, como o Brasil, os efeitos tendem a ser mais profundos. Fernanda aponta um desequilíbrio estrutural. “A empresa pode captar recursos nacionais e lançar tudo como ‘Original Netflix’, mas nenhuma estrutura retorna para o país.”
Segundo ela, isso compromete a formação do setor local. “Isso impede que profissionais desenvolvam linguagens originais, nacionais e autênticas.” Para Fernanda, o problema não está apenas no financiamento, mas na ausência de retorno institucional. “O conteúdo sai com selo global, mas o mercado local não se fortalece.”
Fase de instabilidade no setor
A operação ocorre em um momento de instabilidade da indústria. “A gente está passando por um período de saturação de conteúdo”, afirma. “Tem muito remake, muita franquia com sete, oito filmes, porque a indústria está com medo de colocar coisas novas, porque ela precisa se restabelecer.”
Na avaliação da cineasta, esse comportamento reflete uma dificuldade estrutural dos grandes estúdios. “Hoje, ficar dependendo dos estúdios ou dos streamings para tirar projetos do papel está muito difícil”, afirma. “Nem eles têm uma linha de trabalho claramente definida, ainda mais depois da greve.”
Fernanda lembra que, em outros momentos de crise, o cinema independente ocupou papel central na renovação do setor. “Isso já aconteceu no final dos anos 1970, quando diretores que começaram no circuito independente acabaram redefinindo a indústria”, afirma.
Nos últimos anos, ela tem atuado majoritariamente fora do circuito tradicional. “Sinto que essa adaptabilidade do cinema independente talvez seja um dos caminhos mais seguros para quem almeja construir carreira no cenário atual”, diz. “O independente consegue se mover mais rápido enquanto os grandes ainda estão tentando se reorganizar.”
Para ela, o desfecho da negociação vai além de uma mudança societária. “Esse tipo de concentração não define só quem controla os catálogos”, afirma. “Define o tipo de produção que vai existir nos próximos anos.”
Saiba mais sobre Fernanda Schein:

Do interior do Rio Grande do Sul para Los Angeles, a cineasta e editora Fernanda Schein já atuou em diversos projetos importantes do cinema e da publicidade. Fez mestrado na New York Film Academy e com o tempo se consagrou tanto em projetos internacionais quanto nacionais, como “Neymar: O Caos Perfeito” (Netflix), o filme “Forbidden Wish” (Prime Video), “Poisoned” (Netflix) - ganhador do Emmy - e o documentário de sucesso “O Caso dos Irmãos Menéndez”, que estreou em outubro na Netflix e logo conquistou a atenção do mundo todo. Também, estrelou em produções independentes, como “The Boy in The Mirror”, vencedor do prêmio de melhor curta-metragem no California Women's Film Festival.
Foi editora/montadora principal de projetos dirigidos por Rob Styles, como “A Social(Media) Construct” e “Sleeping Awake”. Brilhou com “I See You” e “Envenenados: O Perigo na Nossa Comida”, para a Netflix, o longa-metragem “Farewelling”, dirigido por Rodes Phire e o curta “Last Minute”, de Joel Junior.
https://fernandaschein.com/
www.instagram.com/feschein
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