Numa realidade cada vez mais acelerada e dominada por estímulos digitais, a busca por refúgios analógicos e táteis tem transformado antigos passatempos em estratégias de saúde mental. Longe de ser apenas uma atividade focada na construção de miniaturas, o ferreomodelismo vem se consolidando como um aliado contra o estresse cotidiano e uma ferramenta de preservação histórica.
O analista de sistemas Fred Mariano, de 43 anos, morador de Curitiba, encontrou no modelismo ferroviário uma forma de atenuar a pressão do dia a dia e resgatar memórias da infância. Praticante do hobby há 16 anos, ele possui hoje uma coleção que soma 126 vagões e 37 locomotivas, mantendo vivo o vínculo com a memória ferroviária do país. "Acredito que tenho esse gosto por ter andado de trem com meus pais quando criança. Ainda peguei o tempo da FEPASA (Ferrovia Paulista S.A.) quando viajava entre o interior e a capital de São Paulo. Tenho até um plano de construir uma maquete para rodar meus trens", afirma Mariano.
Dono de um acervo com cerca de 100 vagões e 20 locomotivas, o editor Mário César de Oliveira, 58 anos, descobriu o ferreomodelismo em 1999, em Curitiba. A curiosidade despertada pelas vitrines de uma loja de brinquedos e modelismo virou pesquisa séria no ano 2000, quando ele passou a usar a internet da faculdade para estudar o hobby. "Ficava encantado pelos modelos expostos e fui descobrindo mais sobre este fantástico mundo dos trens em miniatura. Inclusive, pretendo deixar esse legado para meus filhos", planeja.
A capital paranaense destaca-se pela atividade voltada à preservação desse patrimônio. A cidade conta, inclusive, com o apoio da Associação Paranaense de Preservação Ferroviária (APPF), instituição que reúne adeptos e entusiastas do setor, de crianças a octagenários, promovendo o resgate cultural e histórico das ferrovias brasileiras. “Todos os sábados passo minhas tardes na sede da associação, construindo a maquete fixa ou fazendo alguns reparos, rodando trens e trocando conhecimento com os demais aficionados”, comenta Oliveira.
Para além do valor histórico e do colecionismo, o estímulo sensorial proporcionado pelo som das composições nos trilhos e pela estética das estações atua na ativação de memórias afetivas. Estudos no campo da neurociência indicam que a nostalgia, quando bem direcionada, funciona como um amortecedor psicológico contra a solidão e o tédio, promovendo conforto emocional e reduzindo os níveis de ansiedade. "Vejo no hobby uma forma de tirar o foco da rotina e aliviar a pressão do dia a dia. O ferreomodelismo praticamente obriga a pessoa a relaxar devido à natureza lenta e contemplativa da movimentação das composições ferroviárias", analisa Mariano.
Em meio ao ritmo intenso do cotidiano, encontrar tempo para desacelerar virou uma necessidade de saúde mental. É o que defende Oliveira ao destacar o papel dos hobbies: "Eles têm a função de desconectar nossa cabeça da correria e nos reaproximar daquilo que nos faz bem, seja um momento individual ou entre amigos".
Atividades manuais e minuciosas exigem um nível de concentração que desconecta o indivíduo do fluxo constante de notificações. Dessa forma, as miniaturas deixam de ser apenas entretenimento e passam a figurar como um saudável refúgio para a mente na sociedade contemporânea.
Um dos hobbies mais antigos do mundo
Seja para relaxar, divertir-se, desestressar ou mesmo cultivar o amor pelas ferrovias, muitas pessoas têm aderido ao hobby do ferreomodelismo, afinal, o trem elétrico é uma excelente opção para quem está procurando algo para entreter a mente e passar o tempo. É um hobby saudável, que acaba virando um refúgio contra o estresse digital.
O ferreomodelismo é um dos hobbies mais antigos do mundo, e sua origem remonta ao período em que o transporte ferroviário foi adotado massivamente. As primeiras miniaturas de trens foram fabricadas por volta de 1830, por artesãos alemães. De lá para cá, muita coisa mudou, principalmente no Brasil, onde o transporte de passageiros pelas ferrovias deixou de acontecer, com exceção dos passeios turísticos. Mesmo assim, a paixão de algumas pessoas por este hobby se intensificou.
“O ferreomodelismo é uma mistura de entretenimento, baseado em modelos de escala, e arte, pois os amantes deste hobby ficam fascinados quando começam a construir suas maquetes, fazer toda a parte de decoração e cenário e projetar as construções. É preciso ter capacidade de observação para se construir uma maquete, pois todo esse trabalho de reprodução do mundo real é totalmente artesanal”, diz Lucas Frateschi, diretor da Frateschi Trens Elétricos. As pessoas pensam que o transporte ferroviário morreu, mas ele está vivo e em expansão. A ferrovia é de valor estratégico imprescindível para um país como o Brasil, e este crescimento ajuda a fomentar ainda a mais a paixão que muitos brasileiros têm pelos trens, sendo que muitos passam o hobby do ferreomodelismo para as futuras gerações”, finaliza Lucas.
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