Homero retorna em outro trabalho, na obra Tartaruga de Homero, onde o artista faz menção ao poema para Hermes. Nos versos, o poeta relata o sacrifício do animal pelo deus e assim, do seu casco cria a cítara, um instrumento musical, e com ela, conscientemente, a música, ou no sentido mais amplo, a própria arte. A fotografia ganhou interferências de desenhos, palavras escritas e objetos, unindo assim a imagem gráfica ao trabalho escultórico. Em uma série de desenhos impactantes, o artista volta a aludir esta parte do poema de Hermes, em 7 noites vazias e 21 dias como 21 anos. São 22 desenhos, onde Felix resgata um gesto gráfico primitivo (até, primal) e repetitivo. Porém, sua forma gráfica se realiza de forma diversa, e nunca é idêntica. A exposição também apresenta uma releitura de Vazio Coração, trabalho concebido em 1999 e que recebe agora outra versão, 27 anos depois.
Ao todo, são 13 títulos de obras em Beijo de Língua. O emaranhamento das obras é uma característica corrente no trabalho de Felix, e aqui são três movimentos. O artista nos diz e compara este processo de entrelaçamento de ações e exposições: "São como árias de uma ópera. Blocos de música, com início e fim, melhor, individuais..., mas que se juntam, ou se relacionam, formando um movimento de uma sinfonia, por exemplo. Deste modo, relaciono ações, trabalhos, exposições, e possibilito uma maior e mais rica rede de interações, não só visuais”.
Assim, a exposição que Nelson abrirá no MAC-USP, é o ápice de uma série de três movimentos: Nó a nó, Pedra de Rumo e Beijo de Língua. Iniciado no solstício de inverno de 2025, em São Paulo, Nó a nó foi uma ação realizada no ponto de encontro do prolongamento das linhas de comprimento das plantas arquitetônicas do museu e da galeria Almeida & Dale, que representa o artista. Pedra de rumo foi a exposição nesta galeria, em março deste ano, e Beijo de Língua, no museu.
Felix alinha e monta os trabalhos, de um jeito particular: ora as peças que estão na galeria se alinham como se estivessem no museu e vice-versa, articulando uma relação espacial quase que contínua, entre os dois espaços arquitetônicos. Ao longo dos anos, o artista tem desenvolvido obras que não se encerram em si mesmas, mas se desdobram, conectam e se relacionam com outras, criando, assim, camadas simbólicas em sua linguagem artística. “A apresentação desse conjunto em um museu universitário é particularmente significativa. Ela reafirma o papel dessas instituições como espaços de pesquisa, experimentação e formação crítica, capazes de acolher práticas que investigam a própria arte. Ao longo da exposição, uma série de conversas, encontros e ativações mediadas será realizada como parte das atividades extensionistas da universidade, ampliando o contato do público com os processos e questões que estruturam o trabalho de Nelson Felix”, finaliza a curadora Fernanda Pitta.
Sobre Nelson Felix
Escultor e desenhista, Nelson Felix iniciou sua formação com Ivan Serpa, em 1971. Em 1980, realizou a sua primeira exposição individual, na qual expôs uma série de aquarelas. Seu trabalho se define em 1986, quando produziu a peça intitulada Grafite, que se posiciona por uma relação cósmica – o eixo do sol. Já no espaço arquitetônico expositivo, se mostra evidentemente torta, ou seja, é o espaço imediato que se encontra desalinhado. Esta peça o levou a pensar e criar amálgamas de espaços, desenvolvendo uma série de relações de linhas pelo globo terrestre. Como um único trabalho desenvolvido durante três décadas, intitulado Berceuse. Para expor as inter-relações da sua obra, Nelson Felix escolheu desenhar um livro homônimo publicado em 2021 pela editora Martina Fontes.
Entre as individuais que realizou, destacam-se: Carta de amor, Millan, São Paulo, Brasil (2022); Trilha para 2 lugares, MAM Rio, Rio de Janeiro, Brasil (2017); OOCO, Pinacoteca de São Paulo, Brasil (2015); Cavalariças, Escola de Artes Visuais do Parque Lage (2011); Camiri, Museu da Vale, Vitória, Brasil (2006). Fez parte da 33 e da 23 Bienal de São Paulo, Brasil (2018 e 1996). Participou também de diversas exposições coletivas, entre elas: Fullgás - artes visuais e anos 1980 no Brasil, CCBB (2025); Osso, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil (2017); 6ª Bienal de Curitiba, Brasil (2011) Paper Trail: 15 Brasilian Artists, Allsopp Contemporary, Londres, Inglaterra (2008); além das realizadas no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Brasil (2005); e no MAM São Paulo, Brasil (2004).
Seu trabalho integra importantes coleções institucionais, incluindo: Pinacoteca de São Paulo, Brasil; MAM São Paulo, Brasil; MAM Rio, Rio de Janeiro, Brasil Museu de Arte Contemporânea de Niteról, Brasil; Nynex Corporation, Nova York, Estados Unidos; Coleção Banco Itaú, Brasil, Recebeu prêmios ao longo de sua carreira, como Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça pelo conjunto da obra, Ministério da Cultura/Funarte (2006); residência artística, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Brasil (2002); residência artística, Curtin University, Perth, Austrália (1994); e Prêmio Sol de Prata pelo video OOCO, 22º Festival Internacional de Cinema, TV e Video de Clermond-Ferrand, França (1994).
Serviço
Nelson Felix: Beijo de Lingua
30 de maio a 20 de setembro de 2026
Abertura: 30 de maio às 11h
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC USP
Av. Pedro Álvares Cabral,1301, Vila Mariana - São Paulo - SP, Brasil
Entrada gratuita
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