‘O Filho Perdido’, estreia literária da jornalista Irene Vucovix, apresenta um relato real, cru e profundamente inquietante: a experiência de uma mãe diante da perda gradual — emocional, psicológica e, por fim, física — do próprio filho.
Mais do que narrar uma tragédia, o livro a faz pulsar diante do leitor, linha a linha, até o limite do suportável.
Com 240 páginas e publicado pela Geração Editorial, a obra combina leitura fluida — capítulos curtos e ritmo ágil — com um conteúdo denso e impactante. Ao longo da narrativa, Irene expõe, com coragem, a trajetória de uma mãe que acompanha a deterioração do filho, envolvido em uma espiral de drogas, violência e ilegalidade, até sua morte, em 2017, aos 39 anos. O resultado é um testemunho direto sobre amor, impotência e os limites extremos da maternidade.
Narrado em primeira pessoa, como um diálogo tardio com quem já não pode responder, o livro revela a convivência com um filho diagnosticado com transtorno de personalidade antissocial e sua escalada de comportamentos destrutivos. Prisões, episódios de violência, estelionato, furtos e rupturas sucessivas compõem o cotidiano de quem assiste, sem conseguir impedir, à desintegração de alguém que ama profundamente. Em contraponto, a autora reconstrói a memória de uma infância marcada por afeto e cercado por avós, tios, primos maternos — um contraste que intensifica ainda mais a força do relato.
“Meu filho era um jovem de personalidade violenta, sem empatia, sem afetividade, desrespeitoso e egoísta. Enfrentei grandes problemas a partir da pré-adolescência, quando ele tinha cerca de 13 anos e a droga apareceu. Já não havia como esconder que algo estava profundamente errado”, afirma Irene. “Apesar das várias internações e tratamentos, nada se resolveu.”
Uma escrita nascida do impacto emocional - A escrita começou em 2019, dois anos após a morte do filho, a partir de um impulso inesperado provocado pela leitura de um conto de Franz Kafka. O que seria um texto breve se transformou, ao longo dos anos, em um processo intenso e fragmentado — descrito pela autora como “um arrombamento emocional”.
Concluído em 2024, o manuscrito permaneceu guardado por mais de um ano até que Irene decidisse torná-lo público. “Não foi fácil escrever. Foi sofrido, arrastado: avançava, parava, recomeçava. Quase como se desnudar em praça pública”, relata.
Sem concessões ou romantizações, ‘O Filho Perdido’ rompe com a ideia idealizada da maternidade e apresenta uma figura rara na literatura: a mãe que ama profundamente, mas que também é levada a tomar decisões difíceis e duras na tentativa de salvar o filho. “Tinha esperança de que ele pudesse levar uma vida digna e feliz. Não consegui. E meu filho escreveu o final da nossa história. Eu o vi, enfim. Morto. No caixão”, diz.
Ao longo da narrativa, um segredo aterrador atravessa a obra e só se revela ao final, conferindo ao livro uma dimensão ainda mais inquietante e inesquecível. Mais do que reconstruir uma história pessoal, “O Filho Perdido” dialoga com uma realidade silenciosa e compartilhada por inúmeras famílias. Dependência química, violência, culpa, vergonha e solidão emergem como temas centrais — compondo um retrato íntimo de um drama social frequentemente ocultado.
Entre consultas, terapias, internações e crises imprevisíveis, a autora expõe uma realidade vivida por muitas famílias, mas raramente compartilhada. Em um dos trechos, relata: “Passei a dormir com a porta do quarto trancada à chave e uma cadeira inclinada prendendo a maçaneta”.
Desde o lançamento, em novembro de 2025, Irene tem recebido mensagens de apoio e solidariedade de leitores com perfis muito diversos. “Há muitas mães que enfrentam ou já enfrentaram situações semelhantes. Que elas saibam que não estão sozinhas: formamos um pequeno exército de corações despedaçados, que nunca deixaram de amar seus filhos”, afirma. “Nunca fui tão abraçada, nos sentidos literal e figurado.”
Escrito como um gesto de memória e resistência, o livro busca preservar a existência do filho para além de seus erros. “Meu filho foi muito mais do que o fim que teve. Ele foi amado, teve uma história. E eu precisava contar isso.”
No posfácio, o escritor e filósofo Rodrigo Petronio (autor de mais de 20 livros) define a obra como “uma dinamite pura”, destacando a força e a singularidade do relato. Em outro trecho, afirma que a brutalidade dos fatos apresentados “não encontra paralelo em quase nenhum autor ou obra”.
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